Passarinho australiano lança luz sobre biologia da gagueira

Posted on outubro 14, 2014

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Passarinhos que gaguejam. Estudo feito com o mandarim-diamante associa causa da gagueira a reparo neuronal incompleto em região específica dos núcleos da base. Esse barulhento passarinho nativo da Austrália é capaz de, tal qual humanos, gaguejar e, além disso, moldar a prosódia do seu canto de acordo com o sotaque do grupo ao qual pertence. Por causa da grande variabilidade prosódica do seu canto, neurocientistas o escolheram como modelo animal para estudo da vocalização humana.

Pesquisa publicada esta semana no site da conceituada revista Nature1 sugere que o demorado processo de reciclagem e reparo neuronal em um circuito específico do estriado de pássaros canoros está associado ao surgimento de vocalizações gaguejadas. Esse processo de reparo dura algo em torno de seis meses. Se, após esse período, a capacidade de reparo e reciclagem for insuficiente para restaurar a função do circuito, a gagueira pode assumir um caráter persistente.

Leia abaixo o resumo traduzido da pesquisa:

FUNÇÃO E REPARO DOS NÚCLEOS DA BASE EM PÁSSAROS CANOROS ADULTOS, E SUA RELAÇÃO COM A GAGUEIRA E O SEQUENCIAMENTO MOTOR.

Em pássaros canoros, uma alça palial-estriatal-talâmico-palial está envolvida na aprendizagem motora vocal. Danos à região estriatal da alça, denominada área X, em mandarins-diamante adultos não haviam sido associados a nenhum grande efeito sobre a melodia do canto, e sua função permanecia pouco clara. Mostramos aqui que um dano neurotóxico à área X em indivíduos adultos provocou mudanças no andamento do canto e no sequenciamento silábico global em todos os animais, e aumentou consideravelmente a repetição de sílabas em pássaros cujos temas melódicos finalizavam com poucas repetições antes da lesão. Esse comportamento semelhante à gagueira começou no intervalo de um mês após a lesão, e foi melhorando ao longo de seis meses. Inesperadamente, a região lesionada mostrou uma considerável recuperação, inclusive com a assimilação de neurônios recém-gerados ou reparados que passaram a se tornar ativos durante a vocalização. A coincidência que houve entre o tempo da recuperação e a ocorrência de gagueira no canto dos pássaros sugere que a atividade no circuito ainda em fase de reparação pode estar associada ao surgimento da gagueira. Estes resultados indicam também que, mesmo depois que o aprendizado juvenil está concluído, o estriado adulto ainda desempenha um papel na organização de níveis superiores de processamento das vocalizações aprendidas. Em suma, nossos resultados apoiam a hipótese de que o núcleo estriatal denominado área X desempenha um papel na modulação da produção de vocalizações em tempo real em pássaros adultos. Além disso, nossos resultados mostram também que o estriado de pássaros canoros pode se recuperar de forma extensa após uma lesão neurotóxica e que esse processo de recuperação está associado a um comportamento vocal semelhante à gagueira. Esta gagueira possui alguns paralelos com a gagueira observada na fala humana.

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Referências do post:
1. Kubikova L, Bosikova E, Cvikova M, Lukacova K, Scharff C, Jarvis ED. Basal ganglia function, stuttering, sequencing, and repair in adult songbirds. Nature Scientific Report. 2014 Oct 13;4:6590. doi: 10.1038/srep06590.

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