A área do cérebro responsável pela remissão da gagueira

Posted on agosto 7, 2013

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Esta figura mostra as ativações dentro da porção orbitofrontal da área de Brodmann 47/12 em pessoas com gagueira persistente e em pessoas que se recuperaram naturalmente da gagueira. No 1º grupo, apenas o lado direito foi ativado, tanto antes (amarelo) quanto depois do tratamento (azul); já no 2º grupo, a área BA 47/12 foi ativada bilateralmente (vermelho). O córtex orbitofrontal esquerdo foi a única região de interesse que mostrou diferenças significativas de ativação entre os dois grupos1.

Quatro anos atrás, em agosto de 2009, a revista científica Brain publicava um dos melhores estudos já feitos sobre gagueira. Usando ressonância por difusão de alta resolução e ressonância magnética funcional, a pesquisa examinou três diferentes grupos: 1) pessoas que gaguejam e que nunca receberam tratamento; 2) pessoas que gaguejam e que receberam tratamento; e 3) pessoas que se recuperaram espontaneamente da gagueira, sem tratamento.

A excepcional conclusão do artigo, e que serve como guia para orientar qual deve ser o alvo anatomofuncional das terapêuticas voltadas à gagueira, é que a ativação da área BA 47/12 no córtex orbitofrontal esquerdo é o melhor sinal de sucesso na recuperação da gagueira.

Para quem aplica métodos de treinamento neurológico no tratamento da gagueira, esta é uma informação preciosa. Leia abaixo, in verbis, a conclusão dos autores e faça mais abaixo o download do artigo na íntegra.

A gagueira do desenvolvimento está associada a anomalias estruturais da região frontal inferior esquerda e a uma disfunção secundária nos núcleos da base. A tentativa de compensação das anomalias envolve o hemisfério contralateral (direito), porém ela não garante alívio suficiente dos sintomas, provavelmente devido à insuficiente especialização do hemisfério direito para tarefas linguísticas ou devido ao atraso no processamento resultante do uso de conexões mais longas.

Restabelecer a dominância do hemisfério esquerdo para a produção de fala e reduzir a participação das regiões dorsais do cérebro é um resultado efetivo das terapias de indução de fluência, porém também insuficiente, pois não garante efeitos duradouros. Por outro lado, a melhora nos casos de recuperação espontânea permanente é sustentada pelo envolvimento do córtex orbitofrontal posterior esquerdo, que fica na vizinhança de uma região com anomalia estrutural subjacente de matéria branca.

O fato de esta anomalia estar presente quando a gagueira persiste, e estar ausente depois da recuperação, sugere que as alterações anatômicas na conectividade da matéria branca podem normalizar no curso da recuperação. Da mesma forma que ocorre na recuperação de lesões cerebrais agudas, em que padrões similares (embora menos eficientes) de compensação são vistos, o reparo cerebral na gagueira mostra que a compensação mais eficiente também segue um padrão de plasticidade focal e perianômala*.

*Definição de “plasticidade focal e perianômala”: Processo de compensação cerebral em que uma única área, anatomicamente vizinha ao local da anomalia, assume a função que está prejudicada na região contígua a ela.

Link para fazer o download do artigo na íntegra (em PDF)
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Referências do post:
1. Kell, Christian A., et al. How the brain repairs stuttering. Brain 132.10 (2009): 2747-2760.

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