Relato de caso pioneiro escrito por um pediatra em 1981

Posted on abril 20, 2013

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O primeiro relato na literatura científica mostrando que a gagueira pode surgir como efeito colateral
de uma medicação foi escrito em 1981 por um pediatra. O caso envolveu uma criança de 4 anos.

O arquivo em pdf embutido mais abaixo nesta postagem contém um relato pioneiro. Trata-se do primeiro relato em literatura científica de gagueira induzida por medicação — escrito há mais de 30 anos, em 1981. O caso envolveu uma criança de 4 anos que apresentava uma única mudança comportamental ao receber o medicamento broncodilatador teofilina. O relato contém trechos interessantíssimos:

EFEITO DA TEOFILINA SOBRE A FALA

Embora os sintomas de estimulação generalizada do sistema nervoso central (p.ex., irritabilidade, agitação e insônia) sejam efeitos secundários reconhecidos da teofilina oral, eu recentemente encontrei um paciente que apresentava uma única mudança comportamental isolada ao tomar teofilina. Uma revisão da literatura pertinente não revelou nenhum caso semelhante relatado.

O paciente em questão era um garoto de 4 anos que convivia com quadro de asma desde os 17 meses de idade. Nos últimos 6 meses, a dificuldade em controlar os sintomas da asma obrigou-o a passar por duas internações e três tratamentos de curta duração com corticosteróides orais. Atualmente, seu estado está bem controlado com beclometasona inalada e Theo-Dur (teofilina) oral, 200 mg a cada 12 horas (23 mg/kg/dia).

Mas seus pais relatam que, cada vez que o paciente toma teofilina, ele começa a exibir uma fala gaguejada. Embora ainda possa pronunciar as palavras, ele repete algumas de oito a dez vezes antes de avançar para a próxima. A associação entre o problema de fala e a medicação pode ser coincidência, mas ambos os pais afirmam veementemente que a gagueira é observada somente quando o paciente está sob o efeito da teofilina.

Não consigo encontrar dados que me encorajem a tranquilizar os pais, dando-lhes a garantia de que esta alteração de fala não é um efeito colateral potencialmente permanente da teofilina, nem pude tranquilizá-los quanto à preocupação de que a fala gaguejada possa tornar o garoto suscetível a provocações na escola. Observações semelhantes de outros profissionais podem ser benéficas para um manejo mais adequado do quadro deste paciente

(MCCARTHY, Speech Effect of theophylline. Pediatrics;68(5):749-50. 1981).

Entre outras coisas, chama atenção o temor demonstrado pelo médico em relação a uma possível cronificação da gagueira, quando ele admite não saber ao certo se o efeito temporário da teofilina sobre a fala pode vir a se tornar uma consequência permanente da medicação.

Com o conhecimento disponível hoje, a resposta mais provável seria não; muito embora, pela falta de estudos longitudinais controlados, ainda haja uma grande sombra de dúvida sobre a pergunta feita há mais de 30 anos (!) pelo pediatra que relatou o caso.

De qualquer modo, é uma pérola de relato, tanto do ponto de vista histórico quanto farmacológico.

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Para ler mais artigos sobre gagueira induzida por teofilina, visite este link.

Bibliografia:
McCARTHY, Michael M. Speech Effect of Theophylline. PEDIATRICS 1981;68;749-750

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