Aluno com gagueira é alvo da intolerância de professora

Posted on outubro 13, 2011

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Philip Garber Jr., aluno da faculdade do Condado de Morris, em New Jersey (EUA). “Não fale durante minhas aulas, sua gagueira é perturbadora”, disse a ele uma professora de história. Ele não se calou.

Randolph, New Jersey (EUA) – Na faculdade do Condado de Morris, enquanto assistia a uma aula sobre a descoberta e exploração do Novo Mundo, Philip Garber Jr. levantou a mão no intuito de perguntar por que os exploradores chineses do século 15, cujas expedições chegaram a atingir a África, não alcançaram também a América do Norte. Ele manteve sua mão erguida durante boa parte dos 75 minutos de duração da aula, mas a professora não o chamou. Ela já havia dito a ele para não falar durante suas aulas.

Philip, um adolescente precoce e confiante de 16 anos de idade, está fazendo dois cursos universitários neste semestre e tem muito a dizer, mas ele também tem uma gagueira muito severa, que dificulta sua fala e torna praticamente impossível dizer as coisas de forma rápida. Depois das duas primeiras aulas, em que ele participou ativamente, a professora de história, uma adjunta chamada Elizabeth Snyder, enviou um email pedindo a Philip para fazer perguntas somente antes ou depois da aula, “para não prejudicar o tempo dos outros alunos”.

Em relação às questões que costuma dirigir à turma durante as aulas, a Sra. Snyder sugeriu: “Acredito que seria melhor para todos se você mantivesse uma folha de papel em sua mesa e escrevesse as respostas” [em vez de respondê-las oralmente]. Mais tarde, comenta Philip, ela falou para ele: “Sua gagueira é perturbadora”.

Sem se abater, Philip relatou a situação a um dos pró-reitores da faculdade, que sugeriu então que ele fosse transferido para a sala de outro professor, onde finalmente pôde ficar livre outra vez para fazer e responder perguntas durante as aulas.

Ao mesmo tempo em que o caso de Philip parece incomum, pode-se dizer que a gagueira não é. Cerca de 5% das pessoas passam por uma fase de gagueira em algum momento da infância – e em aproximadamente 1% a gagueira se torna crônica, de acordo com dados do National Institutes of Health (NIH).

A experiência que Philip teve na faculdade traz à tona uma queixa constante entre os gagos – a de que a sociedade não reconhece a condição como uma deficiência – e toca em um antigo dilema pedagógico e social: o equilíbrio entre as necessidades do indivíduo e o bem-estar do grupo.

“Assim como fazemos com todos os alunos recém-chegados à faculdade, tomamos medidas para resolver as reclamações de Philip, de modo que ele possa continuar com êxito a sua formação”, disse Kathleen Brunet Eagan, diretora do departamento de comunicação da faculdade. Ela não quis dizer se a Sra. Snyder, que se recusou a discutir o caso, recebeu algum tipo de punição ou reprimenda, mas observou que a faculdade “se esforça para educar seus professores e funcionários em relação à melhor forma de tratar os alunos.”

A Sra. Snyder ensina história na faculdade há 10 anos, e vários alunos atuais e antigos do campus disseram em entrevista que tinham opiniões positivas sobre ela. Ela foi uma das primeiras estudantes quando a faculdade abriu em 1968, fez mestrado na Montclair State University, e ensinou a disciplina de estudos sociais em escolas do ensino médio por mais de 30 anos.

Para Philip, que passou a maior parte da vida sendo educado em casa ou frequentando a escola pública do bairro, a atitude da professora foi uma surpresa e uma decepção. “Eu nunca tinha experimentado essa forma tão ostensiva de discriminação”, disse ele. “Ter que lidar com isso logo numa sala de aula de faculdade foi muito chocante.”

Jim McClure, membro do conselho da Associação Nacional de Gagueira e porta-voz da entidade, afirmou que a experiência de Philip é pouco comum – porque a grande maioria das pessoas que têm gagueira evita falar em sala de aula. “Geralmente, os professores ou as ignoram, ou tem que persuadi-las a falar”, disse McClure. “O fato de esse estudante demonstrar vontade de participar é um sinal muito saudável.”

Kasey Errico, que foi professor de Philip na sétima e oitava séries – quando ele estudava na Escola Pública Ridge and Valley em Blairstown (New Jersey) –, observa que em qualquer turma há sempre alguns estudantes que fazem mais perguntas que outros e que monopolizam o tempo de aula. “Eu me pergunto o que esta professora faria com esses alunos, os que não gaguejam”, diz Errico. “Se ela dissesse a eles a mesma coisa que disse a Philip, então eu poderia entender.”

Dois alunos da turma da professora Snyder, que falaram sob a condição de permanecerem no anonimato – para evitar eventuais retaliações por parte da professora –, disseram que Philip de fato demorava mais tempo do que os outros alunos, mas nada tão inaceitável assim, e que suas contribuições eram sempre proveitosas. Eles disseram não saber ao certo o que tinha acontecido entre ele e a Sra. Snyder, mas testemunharam o dia em que Philip levantou a mão durante boa parte da aula e foi ignorado pela professora.

“Como você agiria com um garoto que tem um forte sotaque e tem que repetir tudo?”, perguntou o pai de Philip, também chamado Philip, editor de dois jornais de pequeno porte. “Eu não acho que seria correto dizer ao garoto que ele não pode falar.” Os defensores das pessoas que gaguejam usam uma comparação didática para ilustrar o tamanho da incompreensão social em relação à gagueira: em geral, as pessoas que aceitam calmamente um atraso na viagem de ônibus para que um passageiro com deficiência possa embarcar, muitas vezes são as mesmas que demonstram impaciência com quem tem gagueira e está se esforçando para falar claramente.

Antigamente, a gagueira era vista como um problema psicológico, mas o consenso científico atual é que sua origem tem bases genéticas e neurofisiológicas, embora os fatores emocionais possam torná-la pior. No ano passado, um estudo do NIH identificou os primeiros genes ligados à gagueira.

O histórico da gagueira de Philip é muito comum: havia antecedente na família (um tio gaguejava), o problema começou por volta dos 3 anos e ele passou anos fazendo tratamentos fonoaudiológicos, alguns dos quais fizeram mais mal do que bem. No tratamento mais recente de Philip, ele adquiriu um pouco mais de confiança e aprendeu algumas técnicas para melhorar sua fluência. Porém, depois de tantos anos consecutivos de tratamento, ele decidiu no último inverno que era hora de dar um tempo, pelo menos por agora.

“Eu até entendo que às vezes pode ser difícil ouvir uma pessoa que gagueja, mas querer calá-la não é uma resposta aceitável”, disse a mãe de Philip, Marin Martin, uma enfermeira. “Se formos pensar assim”, ela diz, “haveria um sem número de situações sociais em que ele estaria proibido de falar”.

Conversar com Philip requer certo grau de paciência – ainda mais porque ele é notavelmente desinibido, e tende a falar em parágrafos completos, como é possível ver nos vídeos que ele grava em seu canal no YouTube. Para o ouvinte, a recompensa é poder apreciar seu senso crítico afiado e sua sagacidade irônica.

Ele tem se esforçado para suprimir uma característica comum em sua gagueira – contorcer o corpo ou parte dele na tentativa de expulsar uma palavra. “Descobri que é difícil fazer as pessoas escutarem você quando acham que você está tendo uma convulsão”, disse ele. Fotógrafo amador ávido, Philip espera fazer carreira na área, mas se preocupa porque “mesmo que ninguém espere que um fotógrafo fale muito, em qualquer profissão é preciso falar”.

Depois de tantos anos fazendo tratamento fonoaudiológico, Philip até consegue forçar sua fala a assumir um padrão razoavelmente fluente, mas isso exige dele uma concentração tão intensa, que fica difícil falar e manter uma linha de raciocínio ao mesmo tempo.

No momento, ele está se ocupando com aulas de história e redação na faculdade, estudando outras disciplinas em casa e viajando para Manhattan uma vez por semana para trabalhar com dramaturgia na companhia Our Time, um grupo de teatro constituído exclusivamente por pessoas que gaguejam.

Em relação à Sra. Snyder, Philip disse que até poderia ter tentado entender as motivações por trás do pedido da professora, mas para isso ela deveria ter usado uma forma mais gentil de pedir. “Tenho muita sorte de nunca ter sido provocado ou intimidado quando mais jovem, porque algumas pessoas que gaguejam desistem completamente de falar por causa desse tipo de abuso”, disse Philip. “As pessoas não pensam na gagueira como uma deficiência legítima, mas elas precisam aprender.”

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Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Fonte original da notícia: Stutterer Speaks Up in Class; His Professor Says Keep Quiet.
Data de publicação: 10 de outubro de 2011.

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