O incrível efeito da música sobre a gagueira cinética do Parkinson

Posted on outubro 8, 2011

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“A gagueira parkinsoniana, assim como a verbal, pode responder muito bem ao fluxo da música. […] Se a música estiver presente, seu andamento, seu tempo, prevalece sobre o parkinsonismo e permite ao parkinsoniano, enquanto durar a música, retornar ao seu próprio ritmo de movimento, aquele que lhe era natural antes de adoecer.” (SACKS, Oliver. Alucinações Musicais. 2008. pp. 235, 270.)

Muitos têm conhecimento sobre o notável poder da música em fazer desaparecer os bloqueios de fala das pessoas que gaguejam (cantar é uma das formas mais infalíveis de eliminar momentaneamente a gagueira). Mas poucos sabem que um efeito similar de cinesia paradoxal deflagrada pela música também ocorre no Parkinson.

No vídeo a seguir, o neurologista Oliver Sacks fala sobre como é surpreendente a forma com que pacientes com doença de Parkinson (que ele também chama de gagueira cinética) reagem ao estímulo fornecido pela música. Impedidos pela doença de falar e se mover com fluência e suavidade, a música momentaneamente consegue trazer-lhes de volta à normalidade, restaurando-lhes a leveza e o ritmo dos movimentos.

A história contada no vídeo é um dos casos clínicos relatados em seu livro Musicophilia, lançado no Brasil com o título “Alucinações musicais”.

TRANSCRIÇÃO DO VÍDEO

Musicofilia – Histórias sobre Música e Cérebro

Parkinson e Musicoterapia

A música sempre foi muito importante para mim, pessoalmente. Cresci em um ambiente musical. Gostava da atmosfera que a música criava, ela às vezes me animava, outras vezes me acalmava, me consolava. Ela tem um grande significado na minha vida. Mas fiquei fascinado pela música cerca de 40 anos atrás, ao trabalhar com pacientes que mais tarde descrevi em “Tempo de Despertar”, pacientes com Parkinson profundo. Resolvi testar o poder da música com eles.

Eram pessoas que, quando a doença estava severa, não conseguiam se mover, não conseguiam falar, ficavam imóveis, paralisadas, e nada conseguia tirá-las desse estado, mas a música as liberava e dava a elas uma fluência. Assim, pessoas que não podiam dar um passo conseguiam dançar, pessoas que não podiam dizer uma sílaba conseguiam cantar. E este poder da música de liberar o movimento de pessoas com Parkinson é muito impressionante e muito fundamental. A terapia musical foi absolutamente crucial para aquelas pessoas e ainda é.

O aspecto da música que parece especialmente crucial é o ritmo. Pessoas com Parkinson, devido a um dano em uma área particular do cérebro, têm dificuldade de gerar sequências de movimento, de gerar ritmo. A música dá a eles tempo, sequência e ritmo. Dá a eles o tempo, coloca-os de volta em seu próprio tempo. Às vezes pessoas com Parkinson movem-se rápido demais ou devagar demais. A música coloca-as de volta em um tempo normal. E você não precisa de um terapeuta musical para isso. Basta um pequeno iPod para que a música cumpra seu papel. A música é realmente muito crucial no Parkinson.

Com uma de minhas pacientes que era muito musical e que sabia toda a obra de Chopin de cor, ela passava a maior parte do dia completamente congelada, geralmente com o dedo sobre uma das lentes dos óculos. Mas se alguém a colocasse diante de um piano, ela conseguia tocar. E ela gostava muito de Chopin, principalmente da “Fantasia de Chopin”, em Fá menor. Contudo, ela não precisava realmente tocar o piano. Se eu simplesmente dissesse “Opus 49”, isto estimulava sua imaginação, e sua imaginação reproduzia com exatidão o andamento da música. A música durava 14 minutos. E nesses 14 minutos, ela ficava livre do Parkinson. Mas no momento em que o último acorde era mentalmente tocado, ela congelava.

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