Bicicleta para quem tem Parkinson é como música para quem tem gagueira

Posted on setembro 12, 2011

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No Parkinson, andar de bicicleta tem um efeito de supressão momentânea dos sintomas da doença que é, em muitos aspectos, semelhante ao efeito da música sobre a gagueira — conforme nos revela um impressionante vídeo publicado no periódico científico The New England Journal of Medicine1. Conhecido como bicycle sign2, essa característica do Parkinson desmistifica de vez a ideia de que condições neurológicas precisam ter um padrão de manifestação sintomática necessariamente constante.

Muitas características sui generis apontadas em pacientes com gagueira para justificar uma suposta causa psicológica para o distúrbio (como, por exemplo, o desaparecimento da gagueira enquanto a pessoa canta) encontram surpreendentes paralelos em outras condições de base neurológica.

O que acontece com a pessoa com gagueira quando ela está sob o estímulo da música é cientificamente chamado de “cinesia paradoxal”, fenômeno em que a fluência motora de alguém que possui algum distúrbio de controle do movimento torna-se subitamente normalizada, como se a pessoa não tivesse qualquer sintoma de sua dificuldade. Assim como na gagueira, cinesias paradoxais estão igualmente presentes em quase todos os distúrbios dos núcleos da base que afetam o ritmo e a suavidade dos movimentos, como, por exemplo, a doença de Parkinson, a distonia e a síndrome de Tourette.

Todas essas condições produzem paradoxos de normalização momentânea bastante similares aos verificados em pacientes com gagueira, fazendo-nos pensar sobre a possibilidade de que os bloqueios e repetições característicos da gagueira sejam também resultado de uma atividade anormal dos neurônios motores superiores do córtex cerebral na ausência do controle supervisor normalmente fornecido pelos núcleos da base.

Um dos exemplos mais impressionantes de cinesia paradoxal já documentados está no vídeo abaixo. Nele, vê-se um paciente impossibilitado de andar por causa da doença de Parkinson, mas que subitamente recupera a fluência dos movimentos quando anda de bicicleta. Ou seja, para este paciente, andar de bicicleta tem o mesmo efeito de normalização motora que a música teria sobre a fala de uma pessoa com gagueira.

Esse impressionante caso de cinesia paradoxal parkinsoniana — que serve também de esclarecedora metáfora para compreender o paradoxo da fluência no canto em pessoas com gagueira — foi publicado originalmente em abril de 2010 no NEJM. Segue abaixo o relato original e sua tradução na íntegra:

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CICLISMO CONTORNA CONGELAMENTO DA MARCHA EM PACIENTE COM PARKINSON

Um senhor de 58 anos com uma história de 10 anos de mal de Parkinson apresentou-se ao hospital com um incapacitante congelamento em sua marcha. O paciente tinha sérias dificuldades para iniciar a marcha e era capaz de dar apenas uns poucos passos arrastados quando auxiliado por uma pista visual (o pé do examinador colocado à frente do paciente). As tentativas de caminhar evoluíam rapidamente para uma marcha festinante* e, por fim, levavam-no ao chão. Giro axial era impossível. No entanto, a capacidade do paciente de andar de bicicleta estava notavelmente preservada. O congelamento da marcha retornava instantaneamente depois que ele saía da bicicleta (v. vídeo ). Este intrigante paradoxo pode ser explicado pelo movimento cíclico dos pedais da bicicleta, que pode atuar como uma pista externa de temporalização, compensando assim o déficit no sistema dos núcleos da base. Outra explicação alternativa é que os mecanismos de controle motor envolvidos na marcha espontânea, em comparação aos mecanismos de outras atividades que requerem as pernas, como o ciclismo, poderiam ser afetados de forma diferenciada no mal de Parkinson. Andar de bicicleta pode ser uma abordagem útil para o treinamento físico em pacientes com Parkinson que estão presos por congelamento grave da marcha espontânea. [Nota do editor: No segundo trecho do vídeo, o paciente não está usando capacete de segurança, porque na Holanda, ao contrário dos EUA, o uso deste equipamento não é habitual nem requerido por lei.] (SNIJDERS e BLOEM, 2010.)

* A expressão “marcha festinante” refere-se a um modo de andar no qual o tronco é fletido, ocorre a flexão dos joelhos e do quadril, porém de forma rígida, enquanto os passos são curtos e progressivamente mais rápidos. É caracteristicamente observada no parkinsonismo e tende a se manifestar predominantemente durante a marcha espontânea, estando geralmente ausente em formas de locomoção que envolvem pistas externas de temporalização, como marchar em grupo, andar de bicicleta ou dançar sob estímulo de uma música.

Referências do post:
1. Anke H. Snijders, M.D., and Bastiaan R. Bloem, M.D. Cycling for freezing of gait — Images in clinical medicine. The New England Journal of Medicine. April 2010; 362: e46.
2. MB Aerts, WF Abdo, BR Bloem. The “bicycle sign” for atypical parkinsonism. The Lancet. January 2011; Vol.377, Issue 9760, pp.125-126.

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