Prevendo os efeitos do filme “O Discurso do Rei”

Posted on janeiro 12, 2011

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Filme "O Discurso do Rei", indicado em 12 categorias no Oscar e 14 no prêmio BAFTA (o Oscar britânico), deve provocar uma mudança radical na percepção pública da disfemia (gagueira persistente).

No filme O Discurso do Rei (The King’s Speech, Reino Unido, 2010), o Rei George VI teve que assumir o trono e expor sua gagueira em público contra a sua vontade, e certamente contra a vontade de sua esposa, a futura rainha mãe. De forma semelhante ao que ocorreu com outras condições que já foram alvo de forte discriminação e preconceito em décadas anteriores, a divulgação em massa de uma figura proeminente da sociedade que possui o distúrbio, até então visto de forma marginalizada e estereotipada, deve provocar uma mudança radical não apenas na percepção pública da gagueira, mas também na autopercepção das pessoas afetadas por ela.

Ironicamente, embora ela seja em muitos casos escancaradamente óbvia quando o portador do distúrbio fala, a gagueira continua cercada de muitos tabus e escamoteamentos e geralmente é vista como um assunto do qual não se deve falar abertamente.

Gagueira: um assunto do qual não se fala abertamente.Nesse sentido, o filme terá um impacto profundo sobre toda a comunidade de pessoas que gaguejam, e não apenas por conta do retrato realista e verossímil da gagueira feito por Colin Firth em uma atuação magnífica, mas principalmente por tornar amplamente conhecido o fato de que O Rei da Inglaterra possuía o distúrbio. Logo, não há por que se envergonhar dele.

Entre as consequências imediatas do filme, podemos citar as seguintes:

1 – A gagueira deixa de ser algo inaceitável. Antes, muitas pessoas influentes evitavam vir a público falar sobre o assunto, com receio de que isso pudesse prejudicar sua “imagem”. Agora, no entanto, já que até o rei gaguejava, torna-se mais fácil para elas afirmarem: “Eu sou igual ao rei. Tenho o mesmo problema do rei. Da mesma forma que aconteceu com ele, precisei lidar com esse obstáculo e isso me tornou uma pessoa mais forte.” Basta ver, por exemplo, o que tem acontecido nos jornais ingleses. Vários artigos em forma de depoimento têm sido escritos por pessoas conhecidas que antes ocultavam ou evitavam comentar o fato de possuírem gagueira, entre elas, o escritor Ray Connolly, a esposa do ex-líder do partido conservador britânico, Sandra Howard, e o crítico de cinema Philip French. O mesmo fenômeno tem acontecido nos EUA.

2 – Pessoas “comuns” também terão menos receio de admitir em público que possuem gagueira. Se o rei gagueja, então você se torna semelhante a ele. Muitos sentirão orgulho de ser como o rei. Embora para alguns possa ser difícil compreender a razão desse orgulho, pode ter certeza de que muitas pessoas se sentirão assim, orgulhosas de se parecer com o rei e, ao mesmo tempo, redimidas em sua dignidade.

3 – Assuntos que envolvem figuras célebres, especialmente quando pertencem à realeza, vendem. Por consequência, um grande número de jornalistas terá de escrever artigos sobre o filme, o que os obrigará a buscar informações sobre gagueira e a reduzir sua falta de familiaridade com o tema.

4 – Fazer piadas ridicularizantes com a gagueira deixará de ser uma atitude socialmente impune, pelo menos na Inglaterra. Afinal, ridicularizar a gagueira significa ridicularizar o rei! E ridicularizar a figura do rei é considerada atitude de alta traição no Reino Unido.

5 – Muitos jornalistas são completamente ignorantes a respeito da gagueira e de suas causas, e a maioria deles, por conta da pressão do tempo, fazem suas matérias baseando-se no senso comum e apenas copiando textos de fontes pouco atualizadas. Considerando que a compreensão científica da gagueira foi bastante modificada na última década, não é raro ver textos com informações equivocadas. Por sorte, já se notam atualmente exceções que se preocupam em mencionar a base neurobiológica da gagueira e lembrar que, embora exista tratamento que ajude a atenuar o distúrbio, não há cura.

A disfemia continua sendo ignorada pelas políticas públicas de saúde no Brasil.6 – Espera-se que a gagueira deixe de ser um assunto marginal em ciência e que haja mais recursos disponíveis para pesquisa e também para políticas públicas voltadas às pessoas que gaguejam. A esperança é de que não voltem a se repetir casos de flagrante omissão e negligência, como a que ocorreu com este projeto de lei em trâmite na câmara, que contempla o diagnóstico e o tratamento da dislexia e do TDAH na educação básica, mas ignora completamente a gagueira. Se lembrarmos que a incidência da gagueira chega a 5% entre crianças em idade escolar, a omissão se torna ainda mais escandalosa.

7 – Pais de crianças que gaguejam ficarão um pouco menos preocupados em relação ao futuro de seus filhos. Se eles raciocinarem que até mesmo um rei conseguiu viver com gagueira, chegarão à conclusão de que não é o fim do mundo.

Para finalizar, espero que todas essas possíveis implicações do filme tenham um impacto real sobre o bem-estar das pessoas que gaguejam. Seria ótimo se de fato ocorresse uma mudança significativa na percepção da gagueira pela sociedade a ponto de permitir que as pessoas que gaguejam tenham menos reações emocionais como medo, vergonha e constrangimento por ser como são. Afinal, embora se sintam mais reconfortadas com o admirável exemplo de luta do rei, obviamente elas ainda continuarão a gaguejar. Não lhes resta, portanto, outra saída senão aprender a conviver com a gagueira – um aprendizado que deve ser tanto delas quanto das pessoas à sua volta.

Veja abaixo trailer legendado de “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, Reino Unido, 2010):

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